Um breve olhar sobre o dia a dia de nossas crianças e adolescentes mostra que a realidade atual é completamente diferente daquela vivida nas décadas de 1970 e 1980, quando se tinha apenas um par de sapatos para ir à escola e outro para “passear”. Os brinquedos se resumiam a bolas, bonecas e jogos de tabuleiro. No mais, eram brincadeiras e atividades ao ar livre, nas quais a criatividade era mais uma necessidade do que uma habilidade. Não havia computador, internet, TV a cabo, videoga­me, celular e iPod. O acesso à informação e as opções de consumo cresceram de forma exponencial e, para temperar tudo isso, as estratégias de marketing estão cada vez mais agressivas e bombardeiam os jovens, que certamente não estão preparados para essa overdose de estímulos de consumo de uma infinidade de produtos e marcas.

Esse contexto, aliado a outros fatores sociais, tem proporcionado profundas transformações nos valores familiares e na maneira pela qual os filhos modernos se relacionam com seus pais. A demanda para os adultos de hoje é muito mais frequente e intensa. Os pedidos são feitos a todo instante, desde a roupa que “precisa” ter o desenho daquele personagem até o tênis de determinada marca que custa mais que um salário mínimo. Isso sem falar nos brinquedos, jogos, celulares e apetrechos tecnológicos que parecem ficar obsoletos a cada semana, gerando sensação crescente de insatisfação e novos pedidos de consumo. Duas perguntas emergem desse quadro de maneira nítida: como administrar essas demandas que pressionam os pais em uma velocidade incrível e como ajudar a preparar os filhos para que se tornem cidadãos e consumidores conscientes, responsáveis, com visão crítica da realidade e conhecedores dos impactos de suas decisões.

Uma importante ferramenta é a famosa mesada. Se bem planejada e aplicada, pode ser um instrumento muito útil no processo de educação, conscientização e amadurecimento dos filhos. Entretanto, o alerta é que o tiro pode sair pela culatra, caso o processo não seja bem administrado e monitorado. Antes de tudo, é fundamental que os filhos que receberão alguma quantia a título de “mesada” ou “semanada” sejam envolvidos no orçamento familiar, com nível de detalhamen­to proporcional a cada faixa etária. Para crianças muito novas não faz sentido falar de valores de renda e despesas, mas já é possível explicar que é preciso trabalhar “duro” para ganhar dinheiro e comentar sobre os principais itens do orçamento que necessitam ser atendidos.

O primeiro passo na hora de propor a mesada é definir os combinados de utilização. O valor deve levar em consideração a idade da criança ou do adolescente e a condição econômica da família, para que fique dentro de uma lógica no seu contexto social e ambiente de convivência. A periodicidade também pode levar em conta a faixa etária. Para as crianças menores, é mais fácil administrar quantias a cada semana. Na medida em que ela cresce, pode-se alongar a periodicidade, pois o desafio de gerenciar intervalos mais longos será parte do aprendizado. Antes ainda de dar os primeiros reais a seu filho, uma dica que costuma ser útil é fornecer alguns cofrinhos, cada qual com um significado diferente, para que a criança possa dividir o valor recebido. Uma sugestão inicial é ter um cofre para guardar o valor que será utilizado para o consumo imediato, outro para juntar economias durante certo período, permitindo a aquisição de algo que se deseja, aquele destinado a doações e um último para poupança no banco.

A estratégia dos cofrinhos será uma ótima oportunidade para conversar com seu filho a respeito de conceitos como planejamento, disciplina e caridade. No quesito poupança, os pais ainda podem estimular a criança criando regras de aporte conjunto, por exemplo, a cada real que a criança poupar o pai se obriga a contribuir também com mais um real. Para a estratégia realmente funcionar, são necessários alguns cuidados operacionais. Abra efetivamente uma conta poupança em nome do seu filho, mostre os extratos e explique os rendimentos. Isso dará concretude ao processo. Planejar o momento de entregar a quantia periódica também é importante. Tenha em mãos o dinheiro trocado para facilitar a organização da criança. Outro detalhe relevante é buscar informações em sua comunidade sobre instituições que pos­sam receber as doações de seu filho.

Existem mais alguns aspectos importantes que devem ser explicados na hora de definir os combinados. Informe que não haverá antecipações e empréstimos. Ima­gine como seria trágico o futuro financeiro de uma criança acostumada a se endividar com a própria mesada. Explique os itens que você espera que sejam consumidos com a mesada. Sugira, mas não interfira na decisão final. A liberdade de escolha faz parte do processo de aprendizado. Se a criança gastou tudo em figurinhas e faltou dinheiro para o doce, a ideia é justamente que ela aprenda a lição. Outra estratégia interessante é vincular a entrega do valor ao cumprimento de tarefas domésticas (arrumar o quarto, ajudar com a louça etc.). Isso contribui para o desenvolvimento do senso de responsabilidade e começa a demonstrar que é preciso esforço para conquistar dinheiro.

Os pais são exemplos de consumidores e poupadores para os filhos; atitudes coerentes são indispensáveis para que as crianças se sintam encorajadas a seguir as orientações paternas. Os filhos devem ser inseridos na realidade econômica da sociedade, sempre respeitando os limites naturais de compreensão de cada idade.

Comente sobre comerciais na TV e notícias econômicas relevantes. Esse ambiente contribui para que nossos filhos tenham noção das dificuldades que existem para conquistar as coisas e auxilia na formação de um espírito consciente e crítico com a realidade que nos cerca. A conclusão é que a mesada pode ser um instrumento extremamente rico, no sentido de permitir o desenvolvimento de valores como planejamento, organização, disciplina, caridade e consumo consciente, além de ajudar a preparar nossos filhos para tomar decisões tendo em perspectiva as reais consequências de seus atos. Pode dar trabalho, mas nesse investimento o retorno é muito compensador!

Fonte: DM/A Escolha Certa